Um dos principais cobradores de falta da história do futebol, Nelinho revelou como aprendeu a fazer gols nesse fundamento pelo Cruzeiro e pela Seleção Brasileira. Considerado um dos maiores laterais-direitos do clube, o ex-jogador concedeu entrevista à TV Cruzeiro, em episódio divulgado nesta sexta-feira (19).
Inicialmente, Nelinho destacou que tomou gosto pelo futebol nos campos do bairro onde foi criado, em Olaria, no Rio de Janeiro. Como não havia muitas crianças na vizinhança, o jeito de jogar bola era formando duplas em chutes de gol a gol.
Os garotos brincavam na rua de terra, mas também em um campo improvisado, somente com as traves, mas sem as redes do gol. Nessas condições, ele passou a chutar cada vez mais forte, característica marcante ao longo da sua carreira profissional.
“Desde pequeno, eu gostava de ficar batendo na bola. Quando eu cheguei na categoria de base, iniciei no América-RJ, eu terminava o treino e ficava batendo (falta). Naquela época, eu já cobrava as faltas nas categorias de base. Fui gostando e treinava muito”, disse.
Em janeiro de 1973, após ter disputado o Campeonato Brasileiro pelo Remo, Nelinho chegou a Belo Horizonte de ônibus, vindo do Rio de Janeiro. Ali, começaria a passagem de um dos grandes defensores da história do Cruzeiro. No ano seguinte, o lateral-direito já seria convocado para disputar a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.
Depois de ter passado cerca de um mês no Rio se preparando fisicamente para chegar ao Cruzeiro, Nelinho contou que desembarcou na capital mineira mais pronto para os treinos, enquanto os companheiros haviam acabado de curtir as férias e estavam sem ritmo. Isso acelerou o processo de assumir a titularidade.
Com vocação ofensiva e muita habilidade, especialmente nas cobranças de falta e escanteios, Nelinho recebeu confiança de Lima, então cobrador do time, para ganhar essa posição.
“Profissionalmente, quando cheguei no Cruzeiro, quem batia falta era o Lima. Eu comecei a cobrar muitas faltas nos treinamentos. Quando as faltas aconteciam no jogo, ele se aproximava da bola e eu ia junto. Eu não me impunha, não falava que ia bater, mas chegava. Ele começou: ‘Não, pode bater. Bate você’. Ele me deu confiança, comecei a bater e fazer gol, ele nem aproximava mais da bola. Ficou só eu”
Nelinho, sobre quando assumiu o posto de cobrador de faltas no Cruzeiro
Durante a entrevista, o ex-jogador do Cruzeiro também elegeu o ex-meia Marcelinho Carioca como o melhor cobrador de faltas do futebol brasileiro. Nelinho reconheceu que tinha o mesmo estilo.
“Em relação a cobradores de falta, na minha época, tinha vários. Cada time tinha um batedor de falta. Depois que parei, outros vieram e, desses outros, para mim, foi o Marcelinho Carioca. Ele batia com o lado interno, com o lado externo do pé, de longe, de perto, de todas as maneiras. O meu estilo era esse: bater de qualquer jeito”, garantiu.
Treinos no Cruzeiro
Além de ter a habilidade, Nelinho afirmou ter contado com o apoio de Carmine Furletti, vice-presidente do Cruzeiro na época, para treinar fora do horário. O lateral dormia na Toca da Raposa I e pedia o auxílio de dois funcionários para participar dos treinos de falta.
“Na minha época, o treinamento era só um período e, normalmente, de manhã. Você treinava, terminava, todo mundo ia para casa. Às vezes, eu chegava, e o Furletti estava sempre nos treinamentos. Eu falava: ‘Furletti, tem jeito de você deixar o cozinheiro comigo aí? Porque eu vou ficar aqui’. Aí ele: ‘Tá bom, pode ficar'”
Cozinheiro do Cruzeiro ajudava Nelinho a pegar as bolas que entravam no gol
“Botava o cozinheiro e o ajudante dele para ficarem no campo comigo. O que eu fazia? Acabava o treino, almoçava, descansava e, quando dava 15h ou 16h, eu voltava para o campo com esse menino só para ele pegar a bola, não era para ficar no gol. Eu botava uma barreira pesada e ficava empurrando”, detalhou.
Para surpreender os goleiros e ter uma variedade maior nas cobranças, Nelinho treinava gols olímpicos e faltas nos mais diferentes ângulos do campo.
“No treino, no corner (escanteio) do meu lado, colocava a bola dois metros para fora do campo e chutava para dentro do gol, gol olímpico. Ia entrando no campo e fazendo um semicírculo. Eu ia parar lá do lado esquerdo, batendo do lado interno do pé. Colocava as barreiras perto e, depois, de longe. Depois, eu tirava a barreira e colocava as camisas em cada canto da trave. Isso aí demorava uma hora, uma hora e meia, no mínimo”, reforçou.
Pelo Cruzeiro, Nelinho conquistou sete títulos: quatro edições do Campeonato Mineiro (1973, 1974, 1975 e 1977), duas Taças Minas Gerais (1973 e 1982), além da Copa Libertadores (1976).
Brilho pela Seleção
Após os treinos individuais, Nelinho relaxava no cinema da Toca da Raposa I e ficava sozinho no CT. Com um estilo diferente dos companheiros, o lateral brilhou pelo Cruzeiro e pela Seleção Brasileira.
Com a Amarelinha, inclusive, ele também disputou a Copa de 1978, na Argentina, e marcou um gol frequentemente lembrado pelos torcedores do Brasil. Na disputa pelo bronze contra a Itália, com a bola rolando, Nelinho recebeu pela ponta direita e meteu linda curva na bola para superar o icônico goleiro Dino Zoff.
“Eu fazia porque eu gostava. À noite, eu ficava lá na Toca da Raposa I, tinha um cinema lá e eu ficava deitado lá embaixo vendo filme. Eu cansei de fazer isso. Eu fazia demais. Todo mundo ia embora, e eu ficava lá sozinho. Quanto mais você treina, mais você pega confiança. Pode parecer que é fácil, mas só adquire essa confiança com treinamento. Eu treinava muito”, encerrou.
Carreira artilheira
Com quase 200 gols na carreira, Nelinho acredita que não terá a marca superada facilmente por outro jogador que atue como lateral-direito.
“No Cruzeiro, acho que foram 411 jogos e 105 gols. No Atlético, eu fiz 57 gols. Na Seleção Brasileira, eu fiz sete. Eu sei que fiz 170 gols. No mundo, para um lateral-direito, acho difícil. Mas não foram só gols de falta, eu fazia tabela. Eu era ponta direita desde pequenininho. Eu gostava de driblar”, finalizou.

