A eliminação do Cruzeiro para o Flamengo na Copa Libertadores ainda atormenta os torcedores e não poderia ser diferente. Mais uma vez a equipe refugou em um momento de decisão e mostrou não estar a altura do desafio, sendo batida com muita facilidade por um adversário que poderia ter construído um placar tranquilo, ainda no primeiro tempo. O Flamengo foi melhor e se classificou com méritos, mas certamente os rubro-negros ficaram surpresos pela facilidade com que o confronto foi decidido.
O Cruzeiro pareceu não acreditar em nenhum momento que era capaz de eliminar no Flamengo. Mostrou uma postura covarde, subserviente, como se houvesse uma hierarquia a seguir, muitos passos a percorrer antes de poder desafiar um oponente mais rico. E obviamente a questão financeira é determinante no futebol de hoje, mas o jogo não pode ser visto como um ranking de quem tem o maior investimento ou a maior folha salarial. As coisas são decididas no campo, na estratégia, na postura. E neste último quesito, já entramos derrotados.
O fato mais surpreendente do jogo foi o gol marcado pelo Cruzeiro no Maracanã, porque em nenhum momento o clube produziu para marcar. Houve ainda o lance duvidoso sobre a bola ter entrado totalmente ou não antes de ser cortada por Jorginho, mas aquele foi um lance absolutamente casual. Não foi nem uma finalização, seria um golpe de absoluta sorte para um time que em nenhum momento mostrou merecê-la. E na dúvida, a marcação da arbitragem é sempre contra o Cruzeiro, como já estamos acostumados.
Falta de sorte foi algo alegado por Pedro Lourenço e Fabrício Bruno quando falaram sobre o sorteio. É verdade que havia oponentes mais acessíveis na Libertadores, mas não se pode escolher o adversário. E o conformismo demonstrado por personagens tão importantes da nossa história recente não combina com a história e a tradição do Cruzeiro. Todos sabemos sobre as dificuldades enfrentadas na crise de 2019 a 2023, mas este período já passou.
A muleta da reconstrução não serve mais, visto que do Cruzeiro atual ninguém caiu ou disputou a Série B pelo Cruzeiro. Trocamos treinadores, jogadores e até o dono da SAF, que já pegou o clube em um cenário mais pacificado. Pedrinho já investiu muito dinheiro para trazer o Cruzeiro ao cenário de voltar às disputas, mas ainda não conseguiu a fórmula para reaprender a ganhar. Fazendo um paralelo com o nosso algoz nesta Libertadores, o Cruzeiro de Pedrinho lembra muito o “Flamengo do cheirinho” de Eduardo Bandeira de Mello, uma gestão marcada por recuperação financeira e paternalismo após cada fracasso do grupo de jogadores.
Do mesmo modo que o Flamengo em algum momento aprendeu a ganhar, o Cruzeiro também tem as ferramentas para isso. Mas algumas lições precisam ser aprendidas, como a de que comprar um jogador por valor astronômico não é garantia de nada, haja vista a participação ridícula de Gerson em campo no Maracanã. E vender titulares importantes como Kaiki e Christian também teve um peso muito grande, maximizado pelas exibições de Rojas e Wesley, substitutos que chegaram ao clube recentemente.
Alguns torcedores defendem até uma mudança maior na espinha dorsal do time, apontando jogadores como William, Lucas Romero, Matheus Pereira e Kaio Jorge como os pontos em comum nos fracassos de Sul-Americana, Copa do Brasil e Libertadores. No entanto acho importante não analisar o quarteto pela mesma régua. William parecia fora do clube, foi resgatado por Artur Jorge e vinha de bons jogos, até o fatídico jogo no Maracanã. O fim de ciclo em dezembro, quando termina o contrato, é provável. O difícil é confiar na parte física de Fagner para uma sequência de decisões.
Lucas Romero não teve um bom início de jogo, mas além de ter marcado o gol do Cruzeiro foi um dos que mostrou brio. Sua história e seu desempenho recente o credenciam à capitania do time, é o atleta que melhor representa o torcedor no campo. Matheus Pereira fez grandes jogos em mata-matas anteriores, especialmente contra o Boca na Sul-Americana e Corinthians a Copa do Brasil, mas no confronto contra o Flamengo foi péssimo. Duas partidas apáticas que em nada lembraram aquele camisa 10 que era pedido na Seleção para disputar uma Copa do Mundo.
E Kaio Jorge é um capítulo à parte, até por toda a novela que envolveu a busca do Flamengo por sua contratação em janeiro. O desempenho em 2026 está muito longe da temporada passada, ainda que ele tenha anotado 15 gols até aqui e tenha decidido o título do Mineiro. Foi presa fácil para a zaga do Flamengo e na única chance com alguma clareza que foi bem acionado, concluiu mal. Em que momento o camisa 19 voltará a ser notícia pelo que faz dentro de campo, em vez de suas aventuras amorosas, visitas ao Departamento Médico e provocações?
Mas de todos os figurões do Cruzeiro, o de postura mais inaceitável é Fabrício Bruno. Além da péssima atuação, com falhas de posicionamento decisivas nos dois gols do Flamengo, o zagueiro ainda coroou a noite desastrosa com a declaração de que torcerá para o Flamengo na sequência da Libertadores. O time que acabou de nos derrotar e que será nosso próximo adversário no Brasileiro. Sabemos que ele jogou no clube carioca, foi campeão por lá e é natural que guarde carinho pela instituição. Mas deveria demonstrar um mínimo de respeito pela dor da torcida que ele deveria representar hoje, que está sofrendo por erros protagonizados por ele e seus companheiros.
Quando Pedro Lourenço fala algo similar dizendo que vai torcer pelo Flamengo é até mais irritante, mas com uma diferença básica: ele segue pagando as contas e não entra em campo. Mas o Cruzeiro precisa ter uma postura mais altiva e parar de se comportar como um coitado. Não devemos nada ao Flamengo nem a ninguém. E se Pedrinho quer resultados diferentes nos próximos jogos decisivos, precisa cobrar internamente por resultados. Não precisa e nem deve fazer isso na imprensa, mas dentro dos muros da Toca da Raposa onde a roupa suja precisa ser lavada.
Nenhum torcedor aguenta mais desculpas e papo furado, a Copa do Brasil virou a tábua de salvação. E vamos enfrentar clássicos contra o Atlético Mineiro, mesmo adversário que ultrapassamos bem no ano passado, mas que perdemos recentemente no Brasileiro. Artur Jorge e os jogadores têm a faca e o queijo na mão para inverter a péssima impressão do momento e reescreverem suas histórias no clube, para que estejam marcados aqui como vencedores. A torcida vai fazer a parte dela, como sempre. E vocês, são dignos de vestirem a camisa do Cruzeiro? Provem.


