Os jogadores do Cruzeiro voltaram às atividades nesta semana e desde a segunda-feira (22/06) treinam na Toca da Raposa. A segunda parte de temporada será ainda mais pesada como pudemos notar no calendário divulgado pela CBF para o retorno das competições. O Cruzeiro fez 9 jogos em abril e outros 9 jogos em maio, que marcaram o início do trabalho de Artur Jorge. A partir do dia 22/07, quando voltam os jogos do futebol brasileiro, enfrentaremos 10 partidas nos primeiros 30 dias subsequentes.
E mais que o volume de jogos, teremos uma subida no nível dos enfrentamentos. Foi dureza classificar na Libertadores enfrentando Universidad Católica, Boca Juniors e Barcelona, mas será ainda mais difícil eliminar o Flamengo nas oitavas de final. Na Copa do Brasil, a Chapecoense também representa um adversário mais desafiador que o Goiás. E no Campeonato Brasileiro, tradicionalmente, o segundo turno é mais difícil, com todos os times envolvidos em brigas complicadas, seja na parte de cima ou de baixo da tabela.
Com este cenário por vir e objetivos palpáveis de conquistas nas taças, é natural que tenhamos um elenco reforçado, certo? Bom, parecia ser a ideia. Mas até o momento o Cruzeiro anunciou apenas uma contratação, de Gabriel Rojas, que não se trata de um reforço, mas uma reposição, visto que Kaiki está na Itália acertando os detalhes de sua venda para o Como. E o reserva imediato da posição, Kauã Prates, também já está vendido, apenas aguardando atingir a maioridade em agosto para se apresentar ao Borussia Dortmund.
Outras movimentações do clube no mercado até aqui foram relacionadas a saída de jogadores. Janderson foi liberado para o Moreirense, Bruno Alves emprestado ao Norwich, William Fernando doado para o Avaí (de maneira inexplicável), Japa emprestado ao Mirassol e o afastado Walace está sendo cedido por empréstimo ao Vitória. São 5 saídas que não impactam diretamente o núcleo de time de Artur Jorge, visto que nenhum foi utilizado pelo comandante português, mas o número de opções disponíveis em posições carentes fica ainda mais reduzido.
E sobre estas posições carentes, não são segredo para ninguém. O Cruzeiro queria o zagueiro Igor Júlio e chegou a fazer proposta oficial. No entanto, após a recusa inicial do Brighton, o clube parece ter mudado de ideia sobre o atleta ou sobre a necessidade do setor. O cenário fica um pouco mais preocupante quando vemos que Villalba foi aproveitado em dois jogos como lateral esquerdo e o clube não tem mais reserva para a ala. Ainda que o argentino seja polivalente e possa jogar em duas posições, é otimismo demais contar com ele como reserva imediato para ambas.
A função de volante é um caso que preocupa ainda mais quando lembramos a suspensão de Lucas Romero contra o Flamengo no primeiro jogo do mata-mata da Libertadores. Há dois anos o Cruzeiro trouxe Walace com grande expectativa de disputar a posição com Romero. Deu errado e não vou culpar a diretoria por uma aposta que a maioria gostou naquele momento. Há um ano, o clube tentou um jogador desconhecido, Ryan Guilherme, que chegou e saiu 6 meses depois sem causar nenhum impacto.
Desde janeiro a torcida clama por um primeiro volante e o Cruzeiro resolveu se enganar com a expectativa de que Matheus Henrique seja este cara. Eventualmente pode quebrar um galho, mas suas características são muito mais ofensivas do que a função exige. Gregore, Santiago Sosa e Franco Ibarra foram especulados, mas nenhuma proposta oficial foi noticiada até o momento. E que ninguém venha sugerir que a solução para o setor será o retorno do emprestado Fabrizio Peralta, que não conseguiu jogar em bom nível nem no futebol paraguaio.
E para o ataque, é triste constatar que o nosso melhor ponta na temporada é um volante de ofício. Christian é o jogador que mais rendeu na função, mesmo não sendo um jogador de dribles desconcertantes ou grande velocidade. É um atleta inteligente, tático, que virou dono da posição em meio aos problemas físicos de Sinisterra e Bruno Rodrigues, às oscilações de Arroyo e Kenji e à crise técnica de Wanderson. Marquinhos esteve lesionado, mas é outro que não gera muita expectativa pelo desempenho ruim que mostrava mesmo antes da lesão.
Gabriel Pec parece ser o plano A da diretoria, mas um acordo ainda não foi alcançado com o Los Angeles Galaxy. E assim como aconteceu com Igor Júlio, se foi um nome mapeado, as conversas com o staff, o atleta e o outro clube já foram realizadas e os valores são conhecidos, por que tanta demora? Claro que algumas rodadas de negociação são necessárias para garantir um valor melhor para o clube, mas porque tamanha lentidão entre uma conversa e outra?
Uma pergunta obrigatória: O Cruzeiro tem condição de investir em jogadores de qualidade ou só vai gastar mediante a vendas, como aconteceu na lateral esquerda? Um pouco de transparência da diretoria com o torcedor seria muito bem-vinda para que possamos ajustar as nossas expectativas. É urgente a necessidade do Cruzeiro de fazer boas contratações, desde que tenha saúde financeira para isso.
E outro ponto em que a nossa diretoria falha com o torcedor, é a comunicação. Quem é o responsável pelas negociações do Cruzeiro? Pedro Júnio, Bruno Spindel ou Joaquim Pinto? Ainda que o setor trabalhe em conjunto, alguém tem que tomar as decisões e comunicá-las. Artur Jorge pode até ser o porta-voz, mostrou que merece este respaldo da diretoria e deixou claro que vai fazer parte do processo. No entanto ele já tem muitas atribuições no campo como técnico. Não é ele que vai se sentar com agentes para discutir cifras e minúcias contratuais.
O treinador chamou 7 jogadores da base para fazer parte do grupo neste período de treinos, mas é improvável que Kelvin, Gustavinho, Murilo, Eduardo Pape, Felipe Morais, Rhuan Gabriel ou Rayan Lelis despontem como solução no segundo semestre. E nem seria justo colocar essa expectativa neles. Seria um diferencial positivo que os atletas contratados estejam integrados já no período de treinamentos, para que possam se adaptar e dar retorno mais rapidamente.
É hora dos membros da diretoria mostrarem serviço e justificarem seus salários. Os adversários não vão perdoar, o calendário não vai ficar mais fácil, nós é que precisamos estar mais fortes para superar os desafios e ter o que comemorar ao fim da temporada. O tempo está passando e tantos erros de avaliação não podem ser repetidos.

