Era a última semana de agosto de 2024. Em tese, uma manhã de inverno em Belo Horizonte, na prática, aquele calor que quem, assim como eu, é nascido e criado na capital mineira, já está mais do que acostumado a encarar nessa época do ano. Saí da minha casa naquele domingo como normalmente saio em dias de jogos importantes do Cruzeiro: depois de tomar um café da manhã de forma forçada, porque o apetite mesmo desaparece, é expulso pela ansiedade, que por sua vez, é expulsa pelo som do bumbo que ecoa nas arquibancadas quando eu chego ao estádio.
No metrô vazio, bem diferente dos dias úteis e em horário de pico, a parte racional da minha mente tentava convencer a que tem como hobby sonhar acordada de que a missão era muito ingrata e que seria presunçoso em demasia esperar que a primeira vitória do Cruzeiro na história do confronto fosse acontecer justamente naquele momento, com todos os problemas que tínhamos para aquela eliminatória.
Jonas Urias, que a essa altura estava próximo de completar um ano como treinador do Cruzeiro, contou com apenas seis atletas de linha no banco de reservas para esse que era o jogo mais importante da temporada do clube na modalidade, o que obviamente teve suas consequências: Fretes termina essa partida como lateral-esquerda e Tipa foi titular na vaga de Byanca Brasil, fora por lesão, para citar apenas duas.
Independentemente disso, no trajeto da Conselheiro Rocha à Pitangui, eu acreditei. Acreditei quando escolhi o meu lugar na arquibancada (talvez você já tenha visto a “Fubéia” da Samuca TV na transmissão de algum jogo das Cabulosas ou conheça a história do cabelo que pegou fogo por causa de sinalizador, mas nessa época eu assistia aos jogos de maneira bem mais solitária); acreditei quando vi a Juliete acertar aquele chute de raríssima felicidade logo aos cinco do primeiro tempo; acreditei quando vi meu time fazer o que, àquela altura, ele sempre fazia: criava, criava, criava, mas não convertia. Era o time que não virava jogos, alguns diziam. Acreditei mesmo quando a arbitragem conseguiu não enxergar aquele pênalti na Rafa Andrade e quando a Nine deixou a Juliete cruzar com todo espaço do mundo na cabeça da Gutierres que, completamente livre entre as nossas zagueiras, teve mais trabalho para vestir o uniforme do que para colocar aquela bola no fundo das redes da Taty.
Tudo que aconteceu naquela manhã na Arena Independência era previsível. Nunca faltou luta àquele elenco, mas faltavam peças, e quando você chega para um confronto de mata-mata com algumas das suas principais atletas entregues ao departamento médico, é evidente que só luta e disposição não serão suficientes, em especial quando existem grandes jogadoras com poder de definição do outro lado.
Três dias depois, o Cruzeiro empataria o jogo da volta e encerraria a sua participação no Brasileirão Feminino de 2024. Analisando racionalmente, era difícil almejar algo melhor dado todo o contexto, mas àquela altura da minha vida eu não precisava pensar racionalmente sobre o Cruzeiro como o meu trabalho demanda que eu faça hoje.
Quase exatamente dois anos depois, o Cruzeiro de Jonas Urias se prepara para disputar os últimos cinco jogos da primeira fase do Brasileirão Feminino. Ocupando a sétima colocação do torneio, tendo mais empates que vitórias até aqui e apresentando uma dificuldade homérica de vencer as equipes que brigam contra o rebaixamento, as chances de não se classificar entre os oito primeiros colocados não são desprezíveis, embora seja patético sequer cogitar que um clube com essa comissão técnica e com esse elenco não consiga figurar entre os oito melhores do campeonato.
Mas… que elenco? Em seis meses de temporada, o Cruzeiro Feminino conseguiu a proeza de ter seis atletas diagnosticadas com lesões ligamentares nos joelhos, um número tão acima da média que Luiza Parreiras, gerente de futebol feminino do clube, não apenas precisou se pronunciar publicamente a esse respeito, como também sequer fez força para tentar tratar a situação com algum ar de normalidade.
“A gente entende que não é somente uma infeliz coincidência, exatamente pelo alto índice de lesões que a gente tem sofrido até agora […] A gente tem buscado nessas últimas semanas levantar todos os dados e informações que o Cruzeiro Feminino consegue ter, pensando em tecnologia e em toda estrutura, e a gente precisa utilizar, usufruir de tudo isso para chegar em uma conclusão do que está acontecendo […] Isso tem nos preocupado, tem preocupado o presidente, tem preocupado a diretoria como um todo e o que a gente tem feito nessas últimas semanas é envolver todo o departamento de futebol do Cruzeiro, o feminino e o masculino, tentando achar essas causas para que a gente possa, aí sim, com essa conclusão, implementar algumas mudanças que sejam necessárias. No momento a gente ainda não tem a conclusão, mas a gente está trabalhando para que nas próximas semanas a gente consiga apresentá-la e falar sobre isso.”, disse em entrevista coletiva que se encontra na íntegra no canal oficial do clube no Youtube.
Pedro Lourenço assume o controle da SAF do Cruzeiro em abril de 2024 e, sob sua gestão, o orçamento previsto para a modalidade mais que dobra, atingindo valores recordes no clube e no estado de Minas Gerais. É esse orçamento, viabilizado pela gestão Lourenço, que permite ao cruzeirense assistir Isabela Chagas, Isa Haas e Leticia Ferreira, entre outros nomes que elevaram o patamar do seu time titular, vestirem azul e branco em 2025 e é esse orçamento também que permite ao torcedor cruzeirense assistir Gaby Soares, Lorena Bedoya, Marília Furiel e Paloma Maciel seguirem vestindo azul e branco em 2026, mesmo que todas elas tenham recebido propostas importantes de concorrentes diretos do Cruzeiro para deixar o clube ao final do ano passado.
E apesar de acertar ao se esforçar financeiramente para manter as atletas que foram importantes na bem-sucedida temporada do Cruzeiro em 2025, evitando cometer os mesmos erros que o Internacional cometeu na virada de 2022 para 2023, o erro ainda não diagnosticado – ou pelo menos ainda não comunicado – pelo clube que culminou em um número de lesões de LCA muito mais alto que a média levou as Cabulosas ao retrocesso, mesmo que o planejamento e os esforços feitos para a temporada atual visassem impedir que isso acontecesse.
Pode-se argumentar que o orçamento para a atual temporada pudesse ser maior e a verdade é que, num futebol cada vez mais endinheirado, sempre pode, mas essa análise normalmente desconsidera um contexto mais amplo e muito pertinente: em linhas gerais, os clubes brasileiros são pouco transparentes quando se trata de divulgar as cifras relacionadas ao futebol feminino e, na maioria dos casos, os orçamentos divulgados englobam os gastos previstos com as equipes profissionais e as categorias de base. No caso do Cruzeiro, o orçamento previsto e divulgado através da imprensa em janeiro deste ano considera somente a equipe profissional – cerca de dezesseis milhões de reais – e o orçamento para a categoria Sub-17, recém-formada no clube, conta com um orçamento próprio ainda não divulgado.
No frigir dos ovos, vejo dois pontos que precisam ser debatidos: o primeiro é que será muito difícil discutir patamares de investimento no futebol feminino brasileiro enquanto não houver transparência por parte de todos os clubes, pelo menos da Série A1, ao discriminar em seus orçamentos o que é gasto previsto para a equipe principal e o que é gasto previsto para as categorias de base; e o segundo é que a campanha medíocre que Jonas Urias e suas comandadas vêm apresentando no Brasileirão Feminino tem menos a ver com orçamento e mais a ver com as fragilidades defensivas apresentadas por um time que sofre com as escolhas do seu treinador e por ser mal treinado para algumas situações de jogo.
O Cruzeiro sofreu 14 gols em 12 rodadas de Campeonato Brasileiro. Considerando equipes de G8, somente o Bahia (16), sexto colocado, sofreu mais gols que as Cabulosas. A título de comparação, no Brasileirão do ano passado, a equipe havia sofrido apenas 9 gols em 12 rodadas, 5 a menos que na temporada atual. Para além da troca na zaga – sai Isa Haas e chega Tainara – quem assistiu aos jogos do Cruzeiro sabe que a explicação vai muito além de quem veste a camisa 3 celeste: ao insistir em uma formação somente com uma volante de origem, Jonas tem entregado, rodada após rodada, um time frouxo para marcar no setor mais importante do campo; aliado a isso, não são raras as oportunidades em que as alas da equipe, junto às meias, pecam nas transições defensivas, ora demorando a voltar, ora se posicionando mal, cedendo gols e inúmeras ocasiões de perigo aos adversários; e por fim, a bola aérea defensiva do Cruzeiro é muito frágil, não somente pelo grande número de gols cedidos dessa forma, mas também porque é muito raro assistir às nossas jogadoras se sobressaindo nos duelos aéreos em relação às adversárias.
Apesar do treinador do Cruzeiro aparentar bastante desconforto nas coletivas pós-jogo com as críticas recebidas frente às atuações e os resultados de sua equipe, a verdade é que todas elas são válidas, ou pelo menos eram válidas até o momento em que ele ainda tinha um elenco minimamente equilibrado para trabalhar. A partir do momento em que é tirado dele o direito de usar cinco das dez titulares de linha desse time, fica muito difícil não realinhar as expectativas para a temporada, o que me faz voltar lá naquela manhã quente de domingo em agosto de 2024, em que não faltou luta e entrega por parte de quem vestia azul e branco, mas faltou profundidade de elenco para almejar algo melhor na competição e o resultado final foi o mais previsível possível.
A triste ironia desta situação – talvez até mais revoltante do que triste, na verdade – é que o Cruzeiro Feminino retrocede dois anos no tempo mesmo que o seu patamar de investimento tenha avançado exponencialmente de lá pra cá: na casa de oito milhões anuais em 2024, quinze milhões anuais em 2025 e dezesseis milhões anuais em 2026. Vamos para a primeira Libertadores da história do clube na modalidade com a maior folha salarial da história do futebol feminino mineiro, mas não vamos desfrutar disso na prática, porque na prática, o elenco que viajará para o Equador se assemelhará muito mais àquele em que, numa partida decisiva de mata-mata, a Fretes teve que terminar o jogo como lateral-esquerda e a Tipa era a alternativa à Byanca Brasil.
Gosto muito de ficção científica. Doctor Who é a minha série de tv favorita e Back to the Future é aquele tipo de filme-conforto que gosto de reassistir jogada no sofá com meu marido numa tardezinha preguiçosa de sábado. Conforme os comunicados oficiais do clube foram se acumulando até chegarmos no alarmante número de seis atletas fora da temporada em seis meses do ano, a sensação era de que eu tinha entrado na TARDIS, no DeLorean ou em qualquer outra máquina do tempo e voltado dois anos no tempo, quando Byanca, Calhau, Vanessinha e Marília davam o tom do time que poderíamos nos tornar, mas àquela altura, ainda não éramos; quando até dava para brigar, mas só até certo ponto e quando uma eliminação como aquela para o Palmeiras era tida como o cenário mais provável, justamente pela falta de profundidade do nosso elenco.
O futebol é um esporte apaixonante, entre outras razões, pela sua imprevisibilidade. Seria muita tolice da minha parte afirmar que a temporada do Cruzeiro, com quem restou disponível no elenco somado às cinco ou seis contratações que chegarão nesta janela, está encerrada. Numa liga em que o clube dono do melhor elenco do país apresenta, em campo, fragilidades defensivas quase irreconciliáveis em seu lado esquerdo e dificuldades para honrar compromissos financeiros com as suas atletas fora dele, seria tolice descartar qualquer clube minimamente bem estruturado, que conte com uma boa goleira e duas ou três atletas capazes de desequilibrar lá na frente.
Além disso, são nesses momentos de dificuldade e desconfiança que os grupos costumam se unir, se fechar e fomentar narrativas internas que motivam todos os envolvidos a se doarem um pouco mais, a correrem um pouco mais, a brigarem um pouco mais. “Duvidaram muito da gente, mas o nosso grupo é muito trabalhador e o trabalho devolve”, tenho certeza que você já ouviu isso (ou algo bem próximo disso) sendo reverberado por algum futebolista depois de ganhar um título, seja ele qual for, em qualquer um dos quatro cantos desse país. Faz parte e pode fazer parte da história que vamos contar sobre o 2026 das Cabulosas, mas paradoxalmente, ao mesmo tempo em que uma partida de futebol pode ser imprevisível, tudo que a cerca costuma carregar uma boa dose de previsibilidade, e é por isso que, pensando racionalmente, como o meu trabalho exige que eu faça, é muito difícil imaginar que, na hora H, não vai faltar qualidade no banco de reservas para que esse time almeje algo melhor, da exata mesma forma que aconteceu dois anos atrás. Se com o melhor trio de zaga do país à disposição do treinador, esse time já levava tantos gols, o que dirá depois de perder duas das suas três zagueiras de Seleção para o restante da temporada.
Apesar da situação fazer parecer que sim, viajar no tempo não é uma possibilidade real. Caso fosse, Luiza Parreiras, Pedro Junio e Pedro Lourenço poderiam voltar para sete meses atrás e demandar que a rota fosse recalculada e que os processos fossem revistos, o que minimizaria o problema que dilacerou o nosso elenco para a parte mais aguda da temporada. Como não é, resta aos três olharem para frente; planejarem para frente. O treinador do Cruzeiro, que vive pela primeira vez na carreira a experiência de ter suas escolhas e seus resultados questionados, tem contrato somente até o final da temporada e se existe convicção internamente de que esse é o melhor nome para seguir à frente do projeto, as tratativas para renovação de seu contrato já têm que estar acontecendo, uma vez que ao final do ano é certo que ele receberá inúmeras ofertas, o que tornará as negociações mais difíceis e mais caras.
Definindo o seu treinador para a temporada, é preciso definir a situação das treze atletas com vínculo somente até dezembro deste ano e, dentre elas, nomes importantes como Vanessinha, Gisseli e Leticia Ferreira, embora as duas últimas não vivam grande temporada. E, naturalmente, será preciso ir ao mercado, uma vez que algumas das principais referências técnicas da equipe devem voltar a ficar à disposição apenas no segundo trimestre de 2027.
De todas as formas que eu imaginei que o meu time poderia me frustrar em 2026, essa definitivamente nunca passou pela minha cabeça e isso, sem dúvidas, é o que mais dói. Os problemas de campo e bola são muito irritantes, mas eu os vejo em outras equipes também, inclusive nas que lideram a competição; as coletivas do Jonas são muito decepcionantes, mas era esperado que o treinador encontrasse alguma dificuldade para ocupar esse lugar de mais responsabilidade e exposição que o protagonismo carrega consigo. Essas frustrações são do jogo e, francamente, eram de certa forma até previsíveis, porque não estar preparado para ocupar um espaço que você batalhou tanto para conquistar é das coisas mais humanas do mundo, o que não é do jogo, ou pelo menos não deveria ser, é ter o seu elenco despedaçado para o momento mais agudo da temporada mais importante da história do seu clube.
Eu sei que quando o momento chegar, o meu sentimento será o mesmo de sempre. Pouco apetite, muita ansiedade e uma convicção que nasce tímida, mas que quando me dou conta já se fez maior que qualquer outro sentimento dentro de mim. Quando o momento chegar, eu vou acreditar. Na Arena do Jacaré, no Luso-Brasileiro, no Canindé, na Arena Barueri, na Neo Química Arena, no Equador e aqui na minha casa, eu sei que a parte que sonha acordada vai se sobressair à parte racional da minha mente e que eu vou acreditar. No imponderável. No milagre. No merecimento. Que o trabalho devolve. E talvez devolva mesmo, talvez tudo tenha sido preparado para que Byanca Brasil pudesse erguer a taça de campeã brasileira, ou da Copa do Brasil, ou da Libertadores da América com exatamente esse enredo, cercado de todas essas dificuldades, para no fim das contas eu vir aqui nesta mesma coluna e exclamar: tinha que ser assim!
Mas o meu trabalho hoje me demanda pensar sobre esse time e sobre esse clube com um pouco mais de racionalidade e toda dificuldade que aguarda as Cabulosas no segundo semestre de 2026 não pode ser romantizada, porque uma parte significativa dela era evitável, e é em cima disso que eu espero que os donos do clube, juntamente com a gerente de futebol feminino escolhida por eles, trabalhem para trazer soluções que mitiguem o problema de hoje e impeçam que ele volte a acontecer amanhã.
Fé na vida e apoio incondicional na arquibancada, sim, mas somente se acompanhados de trabalho incessante e inerrante na Toca da Raposa I.

