Não precisa se preocupar, não terei a cara de pau de completar a música. Pela fama de uma certa “zica” que a canção carrega e pelo momento horrível que vive o Cruzeiro no Campeonato Brasileiro. Apenas acho importante pontuar que este regresso à principal competição Continental não pode ser tratado como um problema. Jogar a Libertadores é uma dádiva, um privilégio que sonhamos muito nos últimos anos. E que todos merecíamos aproveitar melhor.
Sair da zona de rebaixamento é o objetivo principal no momento, ninguém discorda disso. Mas nesta terça-feira, em Guayaquil, o Cruzeiro joga é pela Libertadores. E não faz nenhum sentido desvalorizar um torneio que pode ser a nossa tábua de salvação em 2026. Não apenas pelo improvável e tão desejado troféu, mas por ser a melhor forma de resgatar a confiança de elenco e torcida para os próximos obstáculos.
A lógica é simples, você estará mais confiante no Cruzeiro contra o Bragantino no domingo se ganhar, empatar ou perder para o Barcelona? Obviamente, vitória faz bom ambiente e o que precisamos no momento é de uma sequência delas. No entanto, uma de cada vez. Sem tempo para projeções otimistas nem lamentações sobre os erros do passado. É trabalhar, corrigir e aprender.
Artur Jorge acerta neste início de trabalho quando não usa desculpas fáceis, como o calendário. Ele sabia onde estava chegando e, ciente das dificuldades, topou o projeto. E tenho confiança que pode conduzir o Cruzeiro a uma recuperação verdadeira na temporada. Sua carreira mostra isso, condições de trabalho e estrutura ele tem.
Mas é necessário algum tempo para corrigir um planejamento que fracassou. As contratações foram mal feitas, ciclos não foram encerrados, a preparação física do time é um desastre… Mas é a realidade que vivemos. E todos os profissionais do clube são muito bem remunerados para achar as soluções que nos garantam resultados para sair deste buraco.
Este elenco contou com grande apoio da torcida por alcançar esta vaga na Libertadores, com o terceiro lugar no último Brasileirão. Foi o melhor momento de grande parte deles pelo clube. Neste ano conquistaram um título Mineiro que só entrou para a história pela briga entre as equipes no apito final. É importante que cada um deles tenha a humildade de assumir o quanto são pequenos dentro do que é o Cruzeiro. Só Romero e Lucas Silva tem história de fato no clube.
E ainda que eu entenda e concorde com praticamente todas as críticas que os atletas merecem, até a parada para a Copa nós somos reféns deles. A janela está fechada e serão mais 16 partidas com este grupo e a missão de Artur Jorge é extrair algo melhor destes jogadores. E eles podem jogar mais.
Foi uma vergonha ver o Cruzeiro descartando a disputa da Sul-Americana na última temporada. Esta arrogância em fracassar não condiz com a história do clube e considero que estes jogadores e esta diretoria não tem o direito de fazer o mesmo na Libertadores. Pelo calvário que vivemos em anos recentes e nenhum cruzeirense precisa relembrar. Por mais que os traumas nos fazam ter medo de reviver aquele inferno.
O triunfo por 3×0 sobre o Vitória nos trouxe esperança de que a missão não fosse tão difícil assim, e o revés por 4×1 no Morumbi foi um tapa na cara para voltar à realidade. Hoje, o Cruzeiro não tem o direito de falar em título de nenhum torneio que dispute. Mas ganhar do Barcelona, é uma missão possível. E é tudo que podemos fazer neste jogo. Começar o plantio de algo bom para salvar a lavoura em um ano de decepções.

