O Cruzeiro demonstrou muita força no mercado de janeiro, quando garantiu a permanência dos seus principais jogadores e contratou Gerson, na época, batendo o recorde de maior contratação da história do futebol brasileiro. Foram 27 milhões de euros desprendidos na contratação do meio-campista junto ao Zenit, podendo chegar a 30, dependendo de cláusulas atingidas durante o contrato. Isso apenas pago ao clube russo, sem considerar o custo importante dos salários do atleta.
De maneira praticamente simultânea, a diretoria trabalhou nas renovações de Matheus Pereira e Kaio Jorge. O novo vínculo com o camisa 10 era uma emergência, visto que seu contrato terminava em junho de 2026 e outros clubes já assediavam o jogador, buscando assinar um pré-contrato. No caso de Kaio Jorge, o interesse do Flamengo fez com que a gestão achasse por bem estender o contrato de 2028 para 2030 e valorizar o artilheiro do Brasileirão e da Copa do Brasil.
Pedro Lourenço falou recentemente, em um reduto em Portugal, sobre o tamanho do esforço que foi garantir o trio na Toca da Raposa. E convenhamos que as três movimentações são compreensíveis, pelo sonho de voltar a conquistar os títulos do tamanho que o Cruzeiro e sua torcida merecem. Mas passados 6 meses, conseguimos ver com mais clareza que algumas apostas não parecem ter sido tão bem pensadas quanto a diretoria disse na época.
Fossemos colocar em escala, a permanência de Matheus Pereira seria o maior acerto e necessidade. Simplesmente não existe camisa 10 no mercado que entregue em qualidade e regularidade o desempenho do meia. Kaio Jorge sofreu com problemas físicos, mas ainda assim é o artilheiro do time na temporada e decidiu o Campeonato Mineiro, alvo traçado como prioritário pela gestão do clube. Não vender o atleta para o Flamengo foi uma forma de marcar território e, ainda que o atleta tivesse contrato, sabemos era praticamente impossível mantê-lo satisfeito sem um aumento nos ordenados.
Aí chegamos a Gerson, que após um início oscilante se firmou como um dos pilares do meio campo celeste. A qualidade técnica do atleta sempre foi inegável, mas o custo da operação só vai se pagar em caso de grandes títulos empilhados nos próximos anos. Cenário inclusive que eu torço bastante para acontecer. Mas racionalmente, podemos classificar esta aquisição como um capricho, incentivado pelo treinador Tite e ratificado por Pedro Lourenço e seus subordinados.
Não vou perder tempo discutindo acerto ou erro na operação, Gerson veio e é uma realidade no Cruzeiro. Este debate foi tratado na época e todas as opiniões tem seu valor. Mas pensando a partir da chegada do Coringa, tivemos reflexos no mercado do Cruzeiro que precisam ser pensados e discutidos. Afinal, todos falávamos na época de Leonardo Jardim sobre a necessidade de um volante para disputar posição com Romero, um reserva para Matheus Pereira e um ponta mais confiável que entregasse gols. O tempo passou e as carências não foram supridas.
E neste meio tempo ainda surgiram outras necessidades, como um reserva para Kaio Jorge após o pênalti perdido por Gabigol contra o Corinthians, que mudou a percepção que o camisa 9 tinha entre os torcedores. Tentaram nos convencer que Chico da Costa seria uma opção útil, por oferecer outras características de jogo. E não adianta resumir que Chico foi pedido de Tite, porque como bem diz o ditado, “filho feio não tem pai”. Mas Bruno Spindel e Pedro Junio juraram de pés juntos que a chegada do centroavante tinha o aval do scout do Cruzeiro. O que é cada vez mais difícil de acreditar.
E falando em scout, dele vieram contratações que testaram a fé dos torcedores nesta primeira fase de temporada. Matheus Cunha chegou para ser a sombra de Cássio e mostrou-se muito abaixo do tamanho da missão. Por um golpe de sorte, encontramos na base um Otávio que se agigantou no momento de maior dificuldade do ano. Já no ataque, Neyser que veio para ser um atleta para se desenvolver, foi alçado a condição de primeiro reserva de Kaio porque conseguiu entregar mais que Chico. Foram 4 gols marcados e muitas oportunidades perdidas, algo até natural para um jovem que tem potencial, mas claramente não está pronto.
E no fechamento da janela o Cruzeiro contratou Bruno Rodrigues, em um movimento emocional. Por tudo que Bruno nos ajudou em 2022 e 2023, mas também por um pedido do jogador, diretamente ao dono da SAF. E Bruno tem sido útil, até fazendo a função de reserva de Matheus Pereira, lacuna no pantel que seguiu vaga após a janela. Somando a falta de boas contratações à inabilidade para negociar jogadores que não acrescentam no time, vivemos um semestre em que o comando do futebol precisa ser questionado. Por mais que Artur Jorge tenha recolocado nossa temporada nos trilhos.
E o que o Gerson tem a ver com isso? Simples, o custo que o Cruzeiro teve para trazê-lo era suficiente para que o clube atacasse as posições mais carentes. Óbvio que Gerson é melhor que Lucas Silva, Matheus Henrique, Eduardo e Japa, as alternativas do setor no final de 2025. Mas tanto esforço por um nome não permitiu a vinda das outras opções. E aqui trata-se de uma observação dos fatos, visto que a diretoria disse que Gerson não impediria outros investimentos, mas na prática impediu sim. Qualquer um que viu os jogos do Cruzeiro em 2026 faz essa constatação óbvia.
E a distorção causada por Gerson não é culpa dele. Mas ao ver o Cruzeiro acertar uma contratação tão vultuosa, o torcedor passou a acreditar que este tipo de investimento é comum e dentro da realidade do clube. O que obviamente não é, basta analisar o balanço financeiro divulgado em abril. Pela sua própria capacidade financeira, o Cruzeiro nem poderia manter o elenco que possui, muito menos dar cartadas tão ousadas.
Com isso vemos especulações completamente sem sentido aparecendo ligadas ao clube de tempo em tempo. Sendo que parece mais realista imaginar um Cruzeiro gastando a partir do que arrecadar na janela. A chegada de Gabriel Rojas parece ligada à provável saída de Kaiki. A vinda de um primeiro volante para disputar com Romero é urgente, mas vai acontecer? Jonathan Jesus e Christian serão mantidos? Pontos que serão esclarecidos pelas próximas semanas, em meio a férias, pré-temporada e Copa do Mundo.
O cruzeirense precisa realinhar expectativas e entender que nem Flamengo e Palmeiras montam time quebrando a banca em toda janela. E remaram anos até alcançar o status atual. Portanto, se você está sonhando com Luiz Henrique no Cruzeiro, você provavelmente vai se desapontar. Se conseguirmos trazer o especulado Gabriel Pec, já estará de excelente tamanho. Os esforços de Pedrinho serão essenciais para que o Cruzeiro seja competitivo na parte final da temporada. Mas que venham menos grifes e mais opões úteis para Artur Jorge. E este sim, fez por merecer o nosso voto de confiança.

